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Diocese de Macapá se prepara para a abertura do Ano Nacional do Laicato

Ano dos leigos e das leigas

Artigo de Dom Pedro: A alma e o corpo

05.11.2017


05/03/2013

O bilhete



Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

 

Nos arredores da principal estação daquela cidade, sobreviviam muitos restos humanos. Eram pobres homens e pobres mulheres, empurrados às margens da vida: moradores de rua, alcoólatras, pequenos ladrões, usuários de drogas. A sujeira, o fedor, a fome, a tristeza e o desespero eram seus companheiros noite e dia. Mais do que dinheiro, eles pediam consolação e coragem para viver. Entre tantos, chamava atenção um jovem. Era imundo e desarrumado, como os outros. No entanto ele parecia ter alguma coisa à qual podia se agarrar nos momentos de maior amargura. Quando batiam a solidão e a angústia, ele tirava do bolso um pedaço de papel, todo sujo e amassado, e lia o que lá estava escrito. Depois o dobrava e o colocava de volta. Às vezes o beijava. Depois disso, o jovem levantava a cabeça e se sentia reconfortado. O que estava escrito naquela folhinha? Ainda se podia ler: “A porta pequena está sempre aberta”. Só isso. Era a mensagem que, um dia, o pai tinha conseguido fazer chegar até ele. Queria dizer que tinha sido perdoado e que, a qualquer hora, podia voltar. Foi o que ele fez, uma noite. Sem barulho, entrou em casa e deitou na cama. No dia seguinte, quando acordou, ao lado dele estava seu pai. Foi um longo abraço.

 

Esta história é uma pobre tentativa de atualizar a maravilhosa parábola do filho que, após ter gastado tudo, volta para casa e o pai o acolhe com festa e alegria. Diferente é a reação do outro filho, o mais velho, que fica rancoroso com o próprio pai, por aquilo que fez.

 

Tenho certeza que muitas famílias passaram por experiências semelhantes. De um lado, temos o filho menor; entendemos o desejo dele de voltar, mas também a consciência de ter abusado do amor do pai, ao ponto de não achar-se mais merecedor de ser considerado filho. Se der certo, no máximo ficará em casa como empregado. Comum é, também, a dureza do irmão mais velho. Afinal ele foi sempre serviçal e obediente e o que recebeu em prêmio? Considera as danças pela volta do irmão um desaforo sem cabimento, um exagero inexplicável. É por isso que nos surpreende sempre a decisão bondosa do pai. Ele não somente perdoa, mas corre para abraçar o filho menor, aquele que jogou fora todo o dinheiro, e manda comemorar!

 

Evidentemente este pai da parábola é muito diferente de todos nós, de tantos pais, mães e irmãos, incapazes de perdoar e de amar de novo, talvez mais do que antes, algum membro da família que consideramos desgarrado. Na nossa lógica, simplesmente humana, quem erra deve pagar. Quem gastou deve repor. Quem desobedeceu uma vez, ou mais, deve ser olhado com desconfiança: se já fez, vai fazer de novo. Chega de bondade. Quando é que o sujeito vai aprender? E assim por diante. Temos todos mil razões para não perdoar ou fazê-lo com tantas reservas que parece mais vingança do que perdão.

 

Jesus nos ensina com esta parábola que Deus Pai não age assim. O seu amor é sem limites, sem broncas, sem carões. O seu amor-perdão é uma festa. Não só, nos diz também que o Pai fica triste quando os outros filhos não partilham dos seus sentimentos e não querem participar da festa do perdão. Mais uma vez também podemos dizer que esta deveria ser a festa da vida, daquela vida nova que Jesus nos trouxe. A alternativa é entre continuarmos rancorosos, ciumentos, julgando-nos uns aos outros, disputando quem é melhor, incapazes de reconhecer os nossos erros e de pedir perdão ou aceitar as nossas próprias dificuldades e defeitos e aprender com o Pai a amar e perdoar sempre.

 

Ter fé – ser cristãos - não significa desistir de pensar, mas sim renunciar à autossuficiência e admitir que todos precisamos do perdão do Pai para voltar a viver como irmãos entre nós. Somente assim Deus pode começar a operar em nós a sua salvação. Somente assim podemos erguer a cabeça e olhar com esperança ao amor que nos aguarda, ao Pai que nos espera, muito além dos nossos pecados. Esta é a palavra de vida que Jesus nos trouxe. Pode estar suja, amassada e esquecida, em algum canto do nosso coração. Mas está lá. Precisamos deixá-la ecoar de novo, para encontrarmos a coragem de tomar o caminho de volta. A festa será por conta do Pai.

 


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