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Segunda-Feira, 24 de abril de 2017.


Artigo de Dom Pedro Conti: Um sorriso

Domingo da Páscoa!

Artigo de Dom Pedro: O sinal da cruz

Domingo de Ramos

Comunidade Católica Shalom realizará retiro de Semana Santa


Marabaixo



Macapá, abril a junho.

Praticado com maior intensidade em Macapã, no antigo bairro do Laguinho, hoje Julião Ramos, em homenagem ao grande líder negro na época da implantação do 1° governo do Território, o MARABAIXO é a mais autêntica manifestação folclórica do Amapá. É um ritual de origem africana que se realiza na dependência das comemorações da Semana Santa, a partir do Domingo da Páscoa, prolongando-se até o Domingo do Senhor.

A Festa do Marabaixo homenageia a Santíssima Trindade e o Divino Espírito Santo através de missas e ladainhas, tendo também seu lado profano, caracterizado através da dança e da música, esta normalmente improvisada, carregada de tristeza ou alegria, traduzindo saborosamente os sentimentos e o dia-a-dia da comunidade.

Ao som de caixas (tambores) rusticamente confeccionadas na madeira cavada, os participantes na sua maioria negros e mulatos de idades variadas, dançam ao redor dos tocadores respondendo em coro o "ladrão", tirado por um cantador ou cantadora, onde, às vezes surgem "desafios" com lances de improvisação muito engraçados.

Na quarta-feira da murta e no Domingo da Santíssima Trindade os negros dançam até tarde da noite numa exuberãncia sem igual. Seus rostos incansáveis, molhados de suor, pedem a intensificação do ritmo do batuque. Os homens fazem gestos da queda de corpo e da capoeira (carioca), jogada antigamente em frente à secular Igreja de São José, enquanto as mulheres, frenéticas, cantam, dançam e gritam no interior da casa onde se processa o MARABAIXO.

Apenas no Laguinho o MARABAIXO sobrevive com grande parte de suas características do passado. Como fato folclórico modificou-se muito através do tempo, dado à variáveis como a urbanização, a modernização e a migração rural, como ocorreu em Mazagão Velho, no município de Mazagão e na localidade de Curiaú, à 8 Km de Macapá. Apenas no Curiaú ainda se dança o MARABAIXO, por ocasião da festa em louvor à Santa Maria, no fim de maio. Em Mazagão Velho, onde supõe-se sua origem, desapareceu completamente. No domingo do Mastro, na quarta-feira da Murta, quando ocorre a quebra da Murta (espécie de arbusto de aroma agradável que dizem servir para afastar os maus presságios) e no Domingo da Santíssima, acontece o "Marabaixo de Rua". Os participantes do ritual dançam e tocam até o lugar onde vão buscar a Murta (ou buscar o Mastro) e voltam pelo mesmo percurso, empunhando as ramagens e desfraldando as bandeiras do Divino e da Santíssima pelos lugares onde passam.
Bebe-se todo tipo de bebida durante as festas, entretanto a mais conhecida é a "gengibirra", preparada com gengibre e cachaça ou somente como refresco.

Os homens ornam os chapéus com flores e ramos da murta enquanto as mulheres, de saias rodadas e coloridas, com toalhas sobre os ombros, dançam sobre si mesmas e ao redor dos tocadores de caixas.

 

DATAS PRICIPAIS DO MARABAIXO
DOMINGO DA PÁSCOA
O dia começa com uma missa na Igreja de São Benedito, no bairro do Laguinho. Dança-se o MARABAIXO pela manhã e à tarde na casa do festeiro.

CORTAÇÃO DO MASTRO
É feita a "Cortação dos Mastros", cinco semanas após a Páscoa, no sábado, nos arredores da cidade. São deixados nas proximidades da casa do festeiro, como preparação para o dia seguinte.

 

DOMINGO DO MASTRO
Os participantes deslocam-se até o lugar onde estão os mastros, dançando, cantando e soltando pistolas e foguetes, com as bandeiras do Divino e da Santíssima. Em seguida apanham os mastros e os levam para casa do festeiro, onde serão guardados.

QUARTA-FEIRA DA MURTA
Na primeira quarta-feira depois do Domingo do Mastro, à tarde, os participantes vão "quebrar a murta" nas cercanias da cidade, dançando, cantando e soltando foguetes pelas ruas, levando a bandeira vermelha do Espírito Santo e voltam pelo mesmo itinerário guardando a murta para enfeitar o mastro no outro dia.

 

QUINTA-FEIRA DA HORA
Pela manhã, depois que cavam o buraco e enfeitam o mastro do Divino com os galhos da murta e a bandeira em sua extremidade, há a "LEVANTAÇÃO DO MASTRO". Dançam o MARABAIXO até à tarde. A partir desta data, durante 18 dias, são rezadas ladainhas em homenagem ao Divino Espírito Santo e à Santissima Trindade, na casa do festeiro, em frente a um altar ornado com fitas, velas e ricas e seculares coroas de prata do Espírito Santo.
A noite, depois da ladainha é realizada uma festa para os participantes e convidados.

SÁBADO DO ESPIRITO SANTO
Nove dias após a quinta-feira da Hora é realizada uma festa dançante, à noite, para participantes e convidados

 

DOMINGO DO ESPIRITO SANTO
Há missa pela manhã na Igreja do bairro. A tarde há a "quebra da murta". Os parcipantes saem pelas ruas dançando, cantando e soltando foguetes, desta vez empunhando a bandeira branca da Santissima Trindade. A noite rezam a última ladainha em louvor à Santíssima. Seguindo-se a realização do baile, que só termina na segunda-feira do mastro.

SÁBADO DA TRINDADE
Festa dançante para participantes e convidados.

 

DOMINGO DA TRINDADE
Dança-se o MARABAIXO nesse domingo e as ladainhas continuam durante mais uma semana.

SEGUNDA-FEIRA DO MASTRO
A partir das 06:00 hs. cavam um buraco em frente da casa, enfeitam o segundo mastro de murta, este da Santissima, e fazem a "Levantação" ao lado do mastro do Divino. Após levantado o mastro o MARABAIXO é dançado até às 12:00 hs., só reiniciando no Domingo do Senhor.

 

DOMINGO DO SENHOR
Este é o último dia do ciclo anual do MARABAIXO. Os participantes dançam até às 18:00 hs. quando param para fazer a "Derrubada do Mastro" (os dois) e em seguida recomeçam a dança, até tarde da noite.

- da: "Cartilha Amapá Folclore da SEPLAN, sem data"
- e o mesmo com o título: "MARABAIXO. O som que vem do Laguinho" e "Quando e onde se dança" da: "O Estado do Amapá, Macapá segunda-feira, 13 de novembre de 1982"

REZA E DANÇA NO FOLCLORE DO MARABAIXO
No folclore do Norte do Brasil, o Marabaixo ainda permanece como dança fundamental dos amapaenses, embora infiltrações de elementos à cultura local tenham contribuído para a sua "decadência". Num misto de manifestação religiosa espontânea do povo, nem sempre bem interpretada, e a originalidade dos passos ao som dos tambores, a dança africana, ali implantada, recebe, hoje, apoio e incentivo de projetos que, através das escolas, fazem ressurgir seu valor cultural nas novas gerações.
"A dança do Marabaixo é uma dança muito engraçada e começa assim, olha..." E ali mesmo, na sala onde está, Venina Francisca da Trindade começa a animar-se e a movimentar com agilidade os pés para demonstrar a originalidade da dança do Marabaixo, característica do Amapá. Num instante, ela explica que, antigamente, cada qual escolhia a roupa a seu gosto e dançava de pés descalços. "A única coisa que sempre deve ter é uma anágua rendada, roupa bem larga, rodada. Toalha, brincos e um raminho de flor na cabeça. Os homens botam chapéu de carnaúba enfeitado de flor e de fitas, uma toalha grande aberta, camisa e calça a gosto."

 

Num zás, Venina estava vestida, "a rigor", e dançou com tanta "devoção" que os presentes a aplaudiam e ensaiavam também os passos do Marabaixo, sempre arrastado, ao som de caixas cobertas de couro, que alguns denominam tambor.

Enquanto os pés descalços deslizavam no chão, Venina movimentava os braços, sorria para os presentes e convidava a cantar:
"A avenida Getúlio Vargas tá ficando um primor.
Essas casas que foram feitas é só pra morá os doutor.
Aonde tu vai rapaiz, neste caminho sozinho...
Vou fazer minha morada, lá no campo do Laguinho.
O lago de São João já não tem nome de santo.
Já hoje é reconhecido por barão do Rio Branco.
MARABAIXO: VALOR CULTURAL DA REGIÃO
O Marabaixo, dança popular e característica no Território do Amapá, surgiu como dança africana, mas é preferida e típica do grupo que se enraizou no Amapá, especialmente em Mazagão. O Território, separado do Pará, apenas politicamente, conserva os mesmos costumes daquele Estado, inclusive, a mesma pronúncia, forma de viver e comidas típicas. Por isso, com o comércio dos escravos, o Amapá, juntamente com o Maranhão e o Pará, constituiu verdadeiro núcleo de negros vindos da África. Fato que explica a descendência quase direta dos negros africanos, como é a Vila de Curiau, no Amapá.
É certo que existem outras danças, como manifestação popular. Haja vista o batuque do Igarapé do Lago e o de Curiau. O Marabaixo, porém, é a fundamental, a que caracteriza o local - explica a professora Laízes, da Secretaria de Educação do Território.

 

Segundo Luís da Câmara Cascudo especialista em folclore - o Marabaixo "deve ser a mais distante influência exercida pela capoeira, dos seus pontos de irradiação no Rio de Janeiro, na Bahia e no Recife".

O Marabaixo tradicional, simples, mas cheio de cor, gestos, poesia, luta, paixão, está ligado à uma expressão muito forte de manifestação religiosa. "Ainda peguei muita coisa boa do Marabaixo, de a gente chegar no Marabaixo e não ter vontade de sair.entrar às 8 da manhã e sair às 8 da manhã do dia seguinte" - afirma Venina. E explica, ainda, que era sociedade onde tinha novenários, mordomos, sócios e festeiros.

 

Nossa entrevistada, Venina, figura que representa o elo de transição entre o Marabaixo do passado e o atual, conta que essa dança é significativa porque torna presente uma tradição "da minha terra, embora não aconteça mais como antigamente". E acrescenta que se tratava de uma festa de profundo significado religioso para as pessoas. A dança vinha somente depois da manifestação devocional que o povo tinha no coração.
ANTES DE TUDO, A DEVOÇÃO AO SANTO
Tudo se desenvolvia ao redor da festa do Espírito Santo. "O domingo do Espírito Santo era o dia da murta (pronúncia popular de multa); então, o pessoal saía para buscar a murta - tirar da vizinhança o dinheiro pra festa. Aí, no sábado, a gente ia pra igreja, tocava os sinos, e era uma beleza... aí rezava a novena; levava o santo pra igreja, à noite, e ouvia a novena do santo. De manhã, o pessol voltava pra igreja pra assistir a missa do Espírito Santo. Depois da missa, trazia o santo em procissão e vinha deixar em casa, porque já ia começar as novenas da Santissima Trindade; então, se trazia o santo pra casa. Nessas alturas, o festeiro já tinha preparado, em casa, com o dinheiro da murta, o chocolate e o pão-de-ló. Lá ficava a mesa bem arrumada esperando o pessoal chegar da missa. Tomava aquele chocolate, comia... e aí entrava a festa dançante."

Geralmente, o povo dirigia-se para o Laguinho, um bairro de negros de Macapá, para dar continuidade à festa, agora dançante, com a participação de homens e mulheres dançando e variando os passos segundo os toques e batidas dos batedores de caixas. O Marabaixo comporta vários tipos de dança, mas sempre ao som de dois tambores e cantos, solo e coro. As canções, geralmente tradicionais, adaptadas a fatos diários. Algumas vezes, há "improvisos" do solista.

 

Durante a festa, bebe-se muita "cachaça limpa ou a batida de limão, de maracujá; mas não é para brigar - explica Venina; é para ter força de continuar dançando".

MORTE E RESSURREIÇÃO DO FOLCLORE
Atualmente, o Marabaixo decaiu muito e, segundo a professora Laízes, existem algumas causas que contribuíram de maneira acentuada para um quase "extermínio" de uma manifestação popular, hoje, reduzida à dança, mas que comportava toda uma gama de expressão pura e espontânea dos sentimentos religiosos do povo. " Pode-se falar, afirma a professora, que o fato principal deve-se à infiltração muito grande de elementos de outros Estados e também de estrangeiros."

 

Procurando manter toda a objetividade possível no sentido de evitar más interpretações, Laízes afirma que um dos fatores culturalmente negativo foi o tipo de evangelização exercida pela Igreja, já modificada hoje em dia. "Assim que, dentro de certas concepções negativas de dança como pecado, criou-se um conflito social entre as danças folclóricas do passado e o tipo de religiosidade. Houve um conflito cultural-espiritual. De forma mal entendida, foram proibidas as manifestações, por exemplo, na porta da igreja. Os sinos, tocados festivamente, foram proibidos, porque era profano, etc. Houve, infelizmente, um choque entre as idéias ditas católicas com as idéias culturais próprias do local. Agora, já não está mais assim; só que não se preservou as raízes culturais do local."

Embora, em nossos dias, o verdadeiro Marabaixo esteja apenas na lembrança dos mais velhos, realizase atualmente, no Amapá, o projeto PRODIARTE (Projeto de Desenvolvimento Integrado da Arte na Educação) que, mediante pesquisa, documentação, incentivo, está levantando os valores culturais do passado, difundindo nas escolas, inculcando nas novas gerações os valores culturais próprios do local. Neste sentido de preservação e apoio à cultura, o PRODIARTE organiza festas folclóricas, dinamizando a cultura da região.
Da: "Família Cristã, ano 47-nº 551 - novembro de 1981"
O MARABAIXO EM 1981
O Marabaixo, em 1981, foi cercado de algumas dificuldades provenientes da ausência da antiga estrutura sociativa que existia em seus primórdios, principalmente no que tange à situação financeira, ponto fundamental no desenvolvimento dos festejos.

 

Mesmo assim, o Marabaixo de 1981 foi melhor que nos anos anteriores, encerrando-se com a derrubação do mastro. As pessoas que assistiram esta cerimônia gostaram muito, acompanhando do início ao fim a festividade do Espírito Santo. Foi de grande importância como, incentivo, colocando como perspectiva um Marabaixo mais incentivado em 1982 e fortalecendo desta forma o maior folclore amapaense.

É importante, para os descendentes e amigos dos cultivadores tradicionais do Marabaixo, da linha direta e indireta de Julião Ramos, levar este folclore à frente, principalmente agora que retornou ao interesse da comunidade. É portanto necessário o apoio de todos, não só da Comunidade, que é o mais importante, como também o apoio de órgãos governamentais, não somente daqueles que já têm apoiado o Marabaixo, como o Mobral, LBA e Prefeitura Municipal de Macapá, mas também de outras entidades que seriam muito úteis no desenvolvimento de todas as etapas da festa.

 

Dona Venina Francisca da Trindade é consíderada um esteio de grande força no Marabaixo, filha do Laguinho é conhecida de mestre Julião, vizinhos no tempo em que o Amapá não era Território. Ela fala sobre as dificuldades hoje existentes, começando pela não existência de uma sede própria, obrigando desta forma que a festa todos os anos seja realizada na casa de algum festeiro interessado no folclore. No tempo do prefeito Domício Campos, houve um contacto mais sério com os representantes dos festejos, surgindo inclusive a idéia da Prefeitura conseguir um terreno para que pudesse ser levantada a sede.

Em '81, o assunto voltou à baila com o atual Prefeito e informou-se que o assunto de sede própria já se encontra nas mãos do Governador do Território, e que se aguarda uma solução sobre a doação do terreno que, obrigatoriamente e mantendo a tradição terá que ser no Laguinho.

 

Segundo ainda dona Venina, foi pensado um terreno em frente ao Grupo Escolar Azevedo Costa, onde funcionava o antigo mercado. Daí as reuniões realizadas com o ex-prefeito Domício Campos, para que fosse formada uma nova diretoria e a cobrança de mensalidades, voltando à organização que fazia, o Marabaixo funcionar nos tempos antigos.

A formação da sociedade se dividia em mordomos e novenários, e quando chegava a época dá festa no Domingo de Páscoa, que é o primeiro Marabaixo do ano, se existissem festeiros, em cada casa havia um Marabaixo e a festa se desenvolvia ao mesmo tempo nas três casas. A queda da sociedade destruiu a base da festa, ficando todos desanimados, perdendo desta forma aquele incentivo inicial.

 

A solução seria fazer uma campanha para que se reorganizasse a sociedade na mesma estrutura de antigamente, o que tem parecido difícil, em vista da experiência do folclorista Nilson Montoril que trabalhou neste sentido e o resultado não foi favorável. Para uma nova tentativa os folcloristas recorrerão ao sr. Nilson, que se encontra inteirado da problemática.
VELHOS TEMPOS
Nos tempos aureos do Márabaixo, todos os membros da sociedade possuíam roça e quando chegava a época do primeiro Domingo de Páscoa, contava-se cinco domingos. O quinto então era chamado Domingo do Mastro, o dia da cortação do mastro dos homens.

No sábado à tarde, às 16 horas, os homens iam cortar o mastro e na vinda de lá deixavam o mastro na viagem. As 18 horas caminhavam para a casa do festeiro, com a bandeira tocando a caixa e soprando buzinas, dando início à dança do Marabaixo que ia até ás 6 horas da manhã' para amanhecer domingo. No domingo, todos iam assistir à missa. Na saida da missa os homens passavam pela casa de dona Carmita Machado para comprar seus ramos de flores. Tudo já estava preparado; a roupa, toalha e o chapéu. O ramo de flores era amarrado no chapéu e em seguida voltavam para o campo para buscar o mastro. Na vinda, traziam em cima do mastro uma criança abanando uma bandeira. As duas bandeiras grandes vinham na frente: a de Trindade e a do Espírito Santo. Atrás vinham as caixas e as buzinas que não passavam de algumas garrafas sem fundo, tirando um som característico. Essa procissão desfilava pela cidade em direção à igreja, quando então dobravam os sinos, o padre mandava abrir a porta e ali eram arriados os mastros e começava o jogo de capoeira.

 

Na semana do mastro todos se reuniam e colocavam a mandioca de molho, para que na segunda-feira fazerem o Karimã. Na ida para a casa da farinha levavam a cachaça, as caixas, as bandeiras e os fogos, e à tarde, quando voltavam, do Laguinho já se ouviam os fogos e as caixas anunciando a feitura da farinha. Quando chegavam em casa dançavam então o Marabaixo até as tantas da noite.


Na quarta-feira as mulheres iam para o campo fazer a quebra de murta para poderem enfeitar o mastro do Divino Espírito Santo. O horário de saída variava entre 15 e 16 horas e no retorno iam para a porta da igreja e de lá para a casa de quantos festeiros houvesse. Lá, elas arriscavam a murta em cima do mastro e em se ida entravam no safãuol e dançavam o Marabaixo até as seis' horas da manhã . À meia noite o -,,. Bernardo ia para 'o f orno fazer rosqui-nhas de Karimã de dois tipos,: para os sócios eram feitas com coco e para os nao sócios eram feitas apenas com Karimá. As 7 horas, na levantação do mastro, as rosuinhas eram distribuíias e a bebida era à vontade.' Segundo' dona Venina, a cachaça era depositada em grandes vasilhames, onde cada participante retirava, com seu caneco, a quantidade desejada. Era a grande fartura da festa.

 

Na quinta-feira. pela manhã, já todo enfeitado, o m'astro era levantado. Essa quinta-feira era chamada de Quinta Feira da Hora.

No domingo do Espírito Santo, outra quebra de murta. AS mulheres iam para o campo agora para colher a murta da Santíssima Trindade. De madrugada, o sr. Bernardo ia fazer as rosquinhas, e tudo se repetia na segunda-feira pela manhã, na levantaçào do mastro.

 

No sábado à noite todos iam ao novenário na igreja, c' ompletando assim as 18 novenas: 9 do Espírito Santo e g da Santíssima Trindade. No final da novena levavam o santo para casa e continuavam a dança; aí era servido chocolate com pão-de-ló e assim passavam o dia até a reunião dos mesários para a escolha dos festeiros do outro ano.

O Dia do Senhor era o dia do encerramento, o último dia do Marabaixo, que culminava com a derrubada do mastro. A fé entre todos era tão grande que todos que participavam recoe culminava com a derrubada do mastro. A fé entre todos era tão grande que todos que participavam recolhiam 'pedaços de madeira do mastro, tido como um santo remédio; f eito como um chá, era tomado para a cura de qualquer doença.
O MARABAIXO EM 1982
O que se espera para 1982, segundo dona Venina e dona Biló, é que haja maior participação, não só dos orgãos governamentais, como também de firmas particulares e de toda a comunidade, para que se possa fazer um Marabaixo mais próximo da realidade e de suas tradições.

 

Para '82 està havendo um movimento para a realização de uma reunião com os moradores mais tradicionais do Laguinho, para que se possa estudar a reorganização da sociedade do Marabaixo, o que atualmente é o maior sonho tanto de dona Biló, como de dona Venina.

Dona Venina afirma que o desinteresse parte do próprio pessoal do Marabaixo, que ao ser convocado para uma reunião, onde poderia discutir e solucionar os diversos problemas dos festejos, "não comparece".

 

Em '82, as festas serão realizadas na casa de dona Biló. Todos os interessados pelo Marabaixo devem cooperar com qualquer ajuda possível possibilitando a volta de um Marabaixo autêntico. Em caso de donativos, os que quiserem cooperar, podem procurar a dona Biló ou donaVenina, que os orientarão neste sentido.
BATUQUE
Todos os batuques existentes não só no Igarapé do Lago do Vila Nova, como na vila do Ajudante de Mazagão, Igarapé do Lago do Maracá e vilas ribeirinhas do rio Cajari possuem, praticamente, as mesmas ladainhas, diferenciando apenas o nome do santo festejado. A pesquisa indica que esses batuques tiveram origem na vila do Curiaú, não confundindo com o Marabaixo e o Vamonez da Festa de São Tiago de Mazagão Velho, pois esses não são batuques, não utilizam atabaques e sim caixas.
No caso do Igarapé do Lago do Vila Nova, o batuque foi introduzido em 1903 pelo sr. Belmiro Macedo Medina, que durante meio século incentivou a festa de N.Sa da Piedade.

Os instrumentos utilizados na festa são três atabaques, feito em troncos ocos de madeira, tendo um lado coberto com pele rústica de qualquer animal, tanto de caça, como a do porco doméstico. A tradição tem perdurado, quase sem alteração, em vista de não haver na vila um padre, pois vê-se ainda hoje o batuque realizado dentro da capela.

 

Após as cerimônias religiosas, a comunidade se reúne no salão de danças e lá o baile se inicia com o batuque, havendo também a apresentação de um pequeno regional, que toca valsa, mazurca, xote, etc., rememorando os danças antigas, até que começa a funcionar a aparelhagem com a festa indo até o amanhecer.

A festa de N.Sa. da Piedade tem seu início na segunda quinzena do mês de junho no igarapé até o rio Vila Nova, recolhendo donativos, e no regresso atinge seu ponto máximo com a volta da Santa à vila, e isso acontece no dia 2 de julho, dia consagrado à Virgem.

 

Durante os dias de festa, a tradição ensina que sempre deve haver patrocinadores oficiais, que oferecem comida a todos os presentes, como carneiro ou porco. Mas hoje em dia, dado as condições precárias dos habitantes do lugar, a quantidade de turistas de Macapá que para lá se dirigem para apreciar a festa, essa refeição popular foi extinta, ficando apenas o nome do patrocinador como recordação do passado, mas sem a necessidade deste arcar com as despesas, como acontece, ainda, na festa de N.Sª. da Conceição no Igarapé do Lago do RioMaracá.

Na vila de Conceição, situada no Igarapé do Lago do Rio Maracá, no período de 14 de novembro a 8 de dezembro, se desenvolve importante festa folclórica à sua padroeira N.Sa da Conceição.

 

Essa festa foi introduzida no início do século pelo Sr. Anastácio Videira, antigo morador do Carvão, no município de Mazagão, festeiro conhecido na festa de N.Sa. da Piedade, no Ajudante.

O ritmo, o batuque das ladainhas e inclusive algumas letras são idênticas à festa de N.Sa. da Piedade do Igarapé do Lago e do vila Nova, sendo levado posteriormente ao Ajudante, que por sua vez, e por intermédio do Sr. Anastácio, é levado ao Maracá, que já expandiu seu batuque às vilas do Rio Cajari.

 

Diferenciando da Festa da Piedade, utilizam apenas dois atabaques. O maior é chamado "móveis" e o menor "tamborim", são acompanhados de dois milheiros (taboca com milho dentro) e um raspador.
O conjunto possui uma hierarquia, começando pelo puxador de música chamado mestre sala (cargo perpétuo, sendo substituído somente após sua morte ou por impossibilidade física), os tocadores (foliões propriamente dito, sendo apenas o tocador de tamborim quem não possui cargo perpétuo), Alferes (porta bandeira Perpétuo) e mestre mantenedor (guardião da Santa Perpétuo). Há uma curiosidade na perpetuação da festa, pois quem desfila com a bandeira do mastro será automaticamente o patrocinador da mesma no outro ano, e passa a ser chamado de juiz do mastro.

A comida é distribuída gratuitamente, sendo que o juiz do mastro fornece um capado (porco), arroz e café na festa do dia 7 para o dia 8 - é importante observar que as festas têm duração de tempo, integral, começando dia 7, após a chegada da Santa, indo até o dia 9, às oito horas da manhã (dançam ininterruptamente). É importante lembrar que a Santa chega à vila numa linda procissão fluvial, com os barcos enfeitados com esmero, para depois então, em procissão terrestre. ser levada até a capela.

 

O patrocínio da festa do dia 8 para o dia 9 é de responsabilidade da diretoria da festa que também fornece comida aos participantes.

A Santa sai dia 14 para as visitas nas casas até a foz do rio Maracá, solicitando ajuda. O regresso se dá dia 7, às 15 horas, na vila de Conceição, onde é realizado um Círio, de barco até a igreja, isso acompanhado dos foliões com seus instrumentos e cantos de ladainhas.

 

Após a novena, tem início a festa dançante, acompanhada pelos batuqueiros que desenvolvem o que chamam de samba, mas num ritmo afro-legítimo; os dançarinos arrastam-os pés de maneira rápida e "sui generis". Depois de algum tempo, os torcedores se retiram e começa o baile propriamente dito, ao som de uma aparelhagem (não existe energia elétrica na vila e a aparelhagem é alimentada por uma bateria de automóvel).

Esta festa está prestes a se acabar, em vista dos padres estarem em campanha constante contra esse tipo de festejo, alegando o problema da bebida, consumida em grande quantidade, e também não permitindo a entrada dos foliões na igreja, cuja tradição exige isto.
Vejamos então a diferença da letra de uma ladainha para a letra de um samba:
ALVORADA (ladainha)
"Cajuê campei, Carica mandá
Alvorada, alvorada
de manhã, de madrugada
são seis horas
"as horas estão passando
já se vai a linda noite
já vem o claro dia
Pedimos a N. Senhora
que nos dê muito bom dia
Aos Senhores e senhoras
À virgem da Conceição
Nos põe a sua bênção
A todos os cristão-,"

LETRA DE UM SAMBA.
"É dejagumbê, é dejagumbê
Ma-Maria, é dejagumbê
Ôh - stá rezado, stá rezado
ôh - tá cumprida as oração
ôh - devotos que rezaram
ôh - terá o céu por salvação
ôh - a virgem N. Senhora
ôh - nos põe a sua bênção
ôh - a todos os fulião"
A maior beleza encontrada em todas as festas folclóricas do Território é a simplicidade e autenticidade de como se desenvolvem. Apesar das dificuldades que surgem ano após ano, os mais antigos ainda acham que poderão vencer todos os empecilhos Tiago Velho, do Igarapé do Lago, descrevendo a festa de 1981, disse que foi mais difícil que em '80, mas em compensação, conforme aumentam os problemas, surgem também melhores condições. A festa de '81 não teria sido brilhante se não houvesse um apoio muito forte do governo Anníbal Barcellos que, segundo o velho Tiago, não tem medido esforços para que a per-. petuação de nosso folclore seja uma realidade. Paira em todos os pontos folclóricos do Território a esperança que em '82 tudo seja ainda melhor que em '81.
da: "O Estado do Amapá, Macapá quarta-feira, 07 de janeiro de 1982"

 

O MARABAIXO

O Marabaixo nasceu da revolta dos escravos, cujo rítimo vem da cadência dos remos, no bôjo noturno das caravelas negreiras, que conduziam mar a baixo, os nossos irmãos africanos, condenados ao trabalho servil nos tempos ominosos da escravatura. Traz a nostalgia da terra distante e o tom místico das crendices populares, onde vamos surpreender um contigente lírico dos mais poderosos, enternecedor e que bem reflete o sentido profundo e pouco preciso do afro-brasileirismo como arte. Os filhos d'África, trazidos para o Brasil a borde das embarcações sinistras, que serviram de inspiração ao gênio rebelde de Castro Alves, ofereceram ao ambiente nativo, uma notável contribuição poética cheia de saudades, ensopadas de conteúdo humano e social, logo assimilada pelos homens da terra em formação ávida por tudo aquilo que viesse completar os seus valores espirituais, ainda indefinidos. Aquela época o mundo girava entre dois pólos de repulsão: A casa grande, faustosa e arrogante - mão de ferro a garrotear o trabalho do eito - e a senzala, faminta coberta de andrajos, como de joelhos, buscando o equador de sua liberdade. Um dia, apesar da frieza glacial do dono da terra, com as burras abarrotadas de dinheiro e os vastos campos cobertos de lavoura, produto de sangue, suor e lágrima, do trabalho escravo, a casa grande, premiada pela revolta concentrada no coração do negro e acovardada ante o volume de força daquela sociedade marginal, foi afrouxando as amarras da intolerância e consentindo, periodicamente, que o elemento servil comemorasse os dias sagrados aos de sua religião, foi quando se abriu uma clareira na noite medieval da servidão e a poesia dolente da alma do escravo começou a borbotar nos cânticos negreiro. Conseqüência, talvez, de sua condição miserável, a par do seu profundo religioso, a arte poética do escravo brotou impregnada de uma forte tendência pessimista, cantando de preferência, os motivos de desalento e da morte.


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